Deus pode ser visto

Deus pode ser visto?

RESUMO

O estudo a seguir é uma análise de textos onde homens comuns são descritos vendo a Deus, como em Êxodo 24.10, onde Moisés e várias pessoas são relatados nessa situação. Sendo este versículo comumente usado como argumento por parte de céticos como um erro bíblico ou mesmo como uma possível contradição, logo que ao longo da Bíblia é dito que Deus não pode ser visto. Discorremos ainda sobre a inerrância e o fato dela não ter, mas ser a Palavra de Deus, por tanto sendo isenta de erros ou contradições. Identificamos ainda contextos onde esses textos se encontram para tentar compreender o que de fato estas pessoas viram, se Deus em pessoa ou apenas uma manifestação parcial do seu Ser, como uma teofania. Examinou-se ainda o fato de Jesus, sendo Deus, ter convivido no meio dos homens. Para isso, usamos como referências bibliográficas, além da Própria Bíblia, autores renomados como Norman L. Geisler, Richard Booker e Dr. Harol L. Willmington.

INTRODUÇÃO

            O presente artigo é uma ponderação sobre um texto em Êxodo 24, onde Deus faria uma aliança com o povo de Israel e após ser referido ao povo todas as palavras e todos os estatutos do Senhor e Moisés ter erigido um altar ao pé do monte e colunas referentes às tribos de Israel e após aspergir o sangue dos sacrifícios sobre este altar, no verso 10, é descrito que aqueles homens viram a Deus.

            Este trecho das Escrituras é muito usado por céticos para defender a invalidade da Bíblia, pois quando comparado a outros textos bíblicos que dizem que Deus não pode ser visto, aparentemente estamos de frente a um erro ou contradição dentro da Sagrada Letra. No entanto o que é necessário compreender é que a Bíblia não tem a Palavra de Deus, mas sim ela é a própria Palavra! Deste modo, este estudo vai tentar esclarecer o que pode ter ocorrido entre estes dois trechos da revelação, pois sabemos que Deus não erra por tanto a sua Palavra não pode errar.

Para isso, identificaremos textos e contextos a fim de analisar o que de fato estes e outros homens como, Adão, Abraão e Jacó viram de Deus e quais os propósitos de Deus sobre a vida de cada um deles.

Falaremos ainda sobre teofanias e cristofanias para concluir que tipo de experiências estes personagens bíblicos foram capazes de ter. Além, claro, de considerar a vinda de Jesus Cristo, o Deus que Tabernaculou entre os homens.    

TEMA

De que forma podemos compreender textos como Êxodo 24.10, onde é descritos que homens comuns, como Moisés, Arão e outras várias pessoas viram o Deus de Israel? Será de fato que algum homem foi capaz de ver a Deus em sua essência?

PROBLEMA

            A Palavra de Deus é enfática e em vários momentos deixa claro que ninguém jamais viu a Deus, no entanto o texto base desse artigo e alguns outros afirmam que pessoas viram a Deus. Seria a Bíblia um livro comum, passivo de erros e contradições, como os céticos costumam afirmar?

            Estes versículos fazem parte de um leque de acusações contra o Livro Sagrado, onde os incrédulos comumente atacam os cristãos alegando que estes seguem um livro cheio de falhas, desconsiderando que a Bíblia é a inerrante Palavra de Deus

            Sobre isto devemos nos preparar para responder como Pedro alerta em sua primeira carta: “estando sempre preparados para responder a todo aquele que pedir a razão da esperança que ha em vós”

JUSTIFICATIVA

            Todos os dias somos confrontados por pessoas que colocam a prova a Palavra de Deus alegando terem encontrado divergências nas Sagradas Escrituras, estas mesmas pessoas pouco estudam ou desconhecem a Bíblia, mas repetem textos aprendidos pela internet e gostam de colocar os cristãos em situações de constrangimento, ao passo que deturpam e ridicularizam o ensino da Letra.

            Diante dessa avalanche de textos aparentemente contradizentes, o estudo a seguir é uma resposta a esse aparente erro, pois há uma necessidade atual e urgente em preparar os cristãos para este tipo de embate.

OBJETIVO GERAL

            Localizar ao longo das Escrituras textos onde aparentemente homens são descritos como vendo a Deus, a fim de observar o que de Deus foi visto, e constatar se é possível ao home ver o Altíssimo em sua essência.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

          Separar nomes de homens que se encontraram com Deus de alguma forma, analisando seu contexto para compreender quais os propósitos de Deus nestas aparições.

          Considerar a luz da Bíblia em quais as circunstâncias esses encontros aconteceram, avaliando e levando em consideração o que é descrito nestas visões.

          Considerar o que de Deus pode ser visto através da pessoa de Jesus Cristo.

METODOLOGIA

            Análise de textos bíblicos que sugerem a possibilidade de algum homem terem visto a Deus, considerando os seus contextos através de uma abordagem qualitativa, com uma proposta de pesquisa exploratória com o fim de esclarecer os principais pontos aqui debatidos. Dessa forma, o procedimento metodológico adotado vai interpolar a análise da bibliografia já existente sobre este assunto, passando pelos principais comentaristas bíblicos, mas principalmente será feita um apanhado criterioso da própria Bíblia.

GEISLER, Norman.

RICHARD, Booker.

WILLMINGTON, Harold L.

ESBOÇO PROVISÓRIO DA PESQUISA OU DO PROJETO A SER REALIZADO

  1.   A PALAVRA DE DEUS

Por muitas vezes nós cristãos, somos encurralados por críticos das Escrituras Sagradas e até mesmo por muitos de nossos irmãos em Cristo, sobre “erros e contradições” que a Bíblia supostamente apresentaria. O dicionário Aurélio define erro como uma ação ou consequência de errar, de se enganar ou de se equivocar, e contradição como uma afirmação ou comportamento que expressa incoerência, em relação ao que foi feito ou dito anteriormente ou ato de contradizer, de dizer ou fazer exatamente o oposto do que disse.

Será a Bíblia um livro de enganos, passivo de erros e contradições, a ponto de ser questionada como sendo um livro como outro qualquer? Sabemos que a Escritura é a palavra de Deus: “A tua palavra é a verdade” (Jo 17:17),  tua palavra é a verdade desde o princípio, e cada um dos teus juízos dura para sempre (Sl.119:160). No entanto ela apresenta textos em determinados momentos muito difíceis de explicar e até podemos dizer com algum aparente “erro ou contradição”. O versículo base deste artigo é supostamente uma delas. O fato de diversas passagens bíblicas alegarem que nenhum ser humano viu a Deus requer uma atenção especial sobre este assunto que será discorrido ao longo deste artigo.

Sobre textos contraditórios, Agostinho há mais de 1600 anos atrás escreveu a seguinte frase:

“Se ficarmos perplexos com qualquer aparente contradição nas Escrituras, não é admissível dizer que o autor deste livro esteja equivocado, mas, sim que o manuscrito está defeituoso, ou a tradução está errada, ou você não compreendeu”. (CITADO em Manual Popular de Dúvidas, p.11)

Como destacado por Norman L. Geisler, no livro Respostas aos Céticos, o fato de alguém apresentar dificuldade para compreender alguma passagem bíblica não significa que esta passagem contenha erros. Por quê? Porque a Bíblia é a Palavra de Deus, e Ele não erra.

Sabendo destes questionamentos por partes dos críticos, fica a seguinte reflexão: será que estamos preparados para respondê-los? A Igreja nos dias hoje se mostra dedicada ao estudo das Escrituras com visão apologética, a ponto estar preparada para responder questionamentos acerca da razão da nossa fé? A própria Bíblia explica que isto é importante, Pedro em sua primeira carta ressalta:

“Antes, santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós, tendo uma boa consciência, para que, naquilo em que falam mal de vós, como de malfeitores, fiquem confundidos os que blasfemam do vosso bom porte em Cristo. (1 Pd 3.15-16)

Sobre a prontidão para responder a qualquer um que pedir a razão da nossa fé, o comentário bíblico de ELLicott, destaca a palavra “responder” (ἀπολογίαν), que no original significa (Apologia), que é definida pelo dicionário, como discurso através do qual se defende, explica ou elogia, uma ideologia, uma doutrina, uma religião, uma obra literária ou artística, ou ação de defender algo ou alguém apaixonadamente.

Salomão, em Provérbios, ressalta que o coração dos justos pensa em como responder, mas a boca dos ímpios deixa escapar o mal, (Pv 15.28), em outro verso ele diz  “Ao insensato responde segundo a sua estultícia, para que não seja ele sábio aos seus próprios olhos” (Pv 26.5). Já em Provérbios 22.19.21 é dito:

“Para que a tua confiança esteja no SENHOR, faço-te sabê-las hoje, a ti mesmo. Porventura não te escrevi excelentes coisas, acerca de todo conselho e conhecimento, Para fazer-te saber a certeza das palavras da verdade, e assim possas responder palavras de verdade aos que te consultarem?” (Pv 22.19-21)

O apóstolo Paulo em sua carta aos Colossenses nos aconselha a uma vida de oração, a fim de falarmos do mistério de Cristo para os que estão de fora, e que nossa defesa seja sempre gentil, com um discurso temperado com sal, para que saibamos responder a cada um com a sabedoria dos céus.

  • POSSÍVEIS PESSOAS QUE VIRAM A DEUS
  • ÊXODO 24.10 – MOISÉS E VÁRIAS PESSOAS VIRAM A DEUS?

“E viram o Deus de Israel, e debaixo de seus pés havia como que uma pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade.” (Êx. 24.10)

Abordaremos neste tópico o texto base e outras passagens em seus contextos, onde há possíveis aparições da figura de Deus, não entraremos no mérito se de fato viram o Criador em sua essência, deixamos essa análise para o próximo tópico, onde confrontaremos alguns versículos para descobrirmos a verdade e chegarmos a uma conclusão. Exploraremos de forma resumida seus contextos e de que forma esses encontros ocorreram a fim de ajudar o leitor a entender o momento das aparições do Senhor a estes homens.

Antes da ocorrência do episódio de Êxodo 24.10, é importante analisarmos as circunstâncias históricas em que tal evento aconteceu. Os israelitas chegaram ao lugar onde Deus queria fazer deles uma comunidade religiosa e particular Sua. Os meses no monte Sinai fez com que Israel recebesse o concerto, as leis e as instruções para que tivessem uma vida em conformidade com os caminhos estabelecidos pelo Senhor. No capitulo 19, vemos a apresentação do concerto no monte Sinai, que nada mais é do que um acordo que requeria o envolvimento das duas partes, isso era um tipo ritual comum naquele tempo, alguns envolviam sangue, sacrifícios de animais, outros envolviam troca de capas, outros até mesmo trocas de nomes, e até cicatrizes eram feitas, para o cumprimento de tal ato. Jesus é o maior exemplo do cumprimento de uma aliança, vide as suas mãos furadas.

Interessante que a palavra aliança se chama Berith e em grego Diatheque, se olharmos para o antigo alfabeto hebraico/semítico, baseado em pictogramas, onde um símbolo representava uma letra, vemos um significado muito mais profundo, fazendo alusão ao sacrifício de Jesus na Cruz. Na língua portuguesa o significado deste termo é: (pacto ou tratado entre indivíduos, partidos, povos ou governos para determinada finalidade, união, ligação pelo matrimônio).

O amor de Deus é manifesto de uma forma especial, e para provar, Ele tomou iniciativa em firmar um acordo (concerto) com o povo. Israel se tornaria sua propriedade particular dentre todos os outros povos, um reino de sacerdotes e povo santo.  Podemos observar que o objetivo era fazer com que o povo lembrasse e praticasse as palavras do concerto, para que não caíssem em atos de idolatrias e outras aberrações que quebraria a aliança causando o rompimento com Deus.

Após a entrega dos mandamentos e leis do Senhor, Moisés é chamado junto com Arão, Nadabe e Abiú (representantes espirituais), e setenta dos anciãos (líderes políticos) de Israel; que subiram ao monte e viram ( רָאָה (raah)) o Deus de Israel, e debaixo de seus pés havia como uma obra de pedra de safira e como o parecer do céu na sua claridade.

Moisés fala face a face em várias oportunidades falou com Deus na Tenda do Encontro, como qualquer que fala com um amigo, como podemos ver no versículo abaixo:

“E falava o SENHOR a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo; depois tornava-se ao arraial; mas o seu servidor, o jovem Josué, filho de Num, nunca se apartava do meio da tenda.”(Ex 33.11)

  • RELACIONAMENTO ENTRE DEUS E OS PRIMEIROS SERES HUMANOS

Mesmo não tendo relatos sobre Adão ter visto a Deus em sua forma literal. Nos capítulos de 1 ao 4 de Gênesis, é provável que tenha acontecido este tipo de encontro. Situações como encontradas em (Gn 1.28), onde Deus os abençoa, e é dito para que fossem férteis, isso nos remete a esta possibilidade. Esse grau de intimidade também é visto em (Gn 2.15) quando o homem é colocado no jardim do Éden para cuidar e cultivá-lo. Já no momento da queda vemos que Adão e Eva ouvem os passos de Deus no jardim e sentem vergonha da sua nudez e fazem roupas de folhas de figueira ato este que Deus não aceitou e preparou para eles uma roupa de pele de animal, muito provavelmente fazendo menção ao sacrifício posterior de Cristo na cruz. Através de todos esses momentos é muito provável que não somente Adão, mas também Eva tenha visto a Deus.

  • RELACIONAMENTO ENTRE DEUS E ABRAÃO

Um dos homens mais extraordinários do Antigo Testamento agora é o centro das atenções. Os relatos citados a partir de Genesis 12 até ao capitulo 25 nos remetem a vários encontros de Deus com seu servo Abraão. Teria este pai da fé visto a Deus no momento do seu Chamado? Vamos ler o primeiro versículo que retrata está possibilidade:

“Então disse a Abrão: Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei” (Gn 12.1)

Em caso de obediência desta ordem dada por Deus, ele seria abençoado sendo:

  • Um grande povo (Gn 12.2)
  • Um nome famoso (Gn 12.2)
  • Uma benção para todos os povos da terra (Gn 12.3)

Partindo para a terra de Canaã e chegando lá, há outro relato de aparição (Gn 12.7) onde é dito que “ O Senhor apareceu a Abrão e disse: “ à sua descendência darei esta terra”. Abrão construiu ali um altar dedicado ao Senhor, que lhe havia aparecido.”

      Uma nova promessa seria feita a este grande homem: “À sua descendência darei esta terra.” (Gn 12.7)

A chegada na terra da promessa, talvez tivesse causado um grande desconforto para Abrão, pois estavam os cananeus habitando lá.  Dentro deste contexto, Alexander Maclaren em um de seus sermões sobre o capitulo 12 de Gênesis diz:

“Abrão estava pronto para dizer, sem dúvida: ‘Esta não pode ser a terra para mim, povoada como é com todos esses cananeus.’ Estamos sempre prontos para pensar que, se encontrarmos obstáculos, devemos ter entendido mal as instruções de Deus, mas “muitos adversários” geralmente indicam uma ‘porta aberta’.” (citação)

Depois da partida de seu sobrinho Ló para as proximidades de Sodoma, o Senhor apareceu mais uma vez a Abrão (Gn 13.14,) e renovaram as suas forças, com acréscimos as promessas feitas anteriormente. Ordenando que inspecionasse toda a terra e que a daria a sua descendência eternamente e seria tão numerosos como o pó da terra.

Deus tinha prometido a Abraão que teria um filho (Gn12.1-7) e novamente Deus se revela ao justo homem santo e o acalma “ Não tenha medo, Abrão! Eu sou o seu escudo; grande será a sua recompensa!”(Gn15.1). Recompensa essa que seria como as estrelas do céu (Gn 15.5).

Treze anos se passaram e novamente o Deus todo poderoso (El Shaddai) aparece a Abrão (Gn 17.1) reitera o concerto e muda o seu nome para Abraão e ainda acrescenta que ele seria pai de multidões de nações.

Em outros momentos da história deste grande herói da fé, vemos a manifestação (aparição) de Deus como nos casos da destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 18.19), e também na prova com o “quase” sacrifício de seu filho Isaque (Gn 22). Todos os eventos e comportamentos de fé fizeram com que este homem fosse chamado de amigo de Deus. Poderia um amigo se esconder a ponto de não mostrar sua face ao outro? Em vários outros momentos a Escritura faz referência a Abraão, pela sua fé e amizade com Deus: “E cumpriu-se a Escritura, que diz: E creu Abraão em Deus, e foi-lhe isso imputado como justiça, e foi chamado o amigo de Deus. (Tg 2.23). E ainda o próprio Deus dava referência dessa amizade: “Porém tu, ó Israel, servo meu, tu Jacó, a quem elegi descendência de Abraão, meu amigo” (Is 41.8)

  • RELACIONAMENTO ENTRE DEUS E AGAR

“E ela chamou o nome do SENHOR, que com ela falava: Tu és Deus que me vê; porque disse: Não olhei eu também para aquele que me vê?” (Gn 16.13)

Este evento ocorre quando Agar, ainda grávida, olhava com desprezo a Sara (Gn 16.4), fazendo com que a mulher de Abrão a maltratasse, posteriormente levando Agar a fugir a caminho da sua pátria, o Egito, quando então o anjo do Senhor apareceu a ela e ordenou que voltasse à sua senhora (Sara) e sujeitar-se a ela. Em troca desta submissão, Deus abençoaria grandemente seu filho Ismael com numerosos descendentes.

Agar e seu filho Ismael teriam novamente um encontro com um anjo de Deus (Gn 21.27), onde depois de ser expulsa por Abraão vagueia pelo deserto de Berseba e chama Agar.

“E ouviu Deus a voz do menino, e bradou o anjo de Deus a Agar desde os céus, e disse-lhe: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino desde o lugar onde está. Ergue-te, levanta o menino e pega-lhe pela mão, porque dele farei uma grande nação. E abriu-lhe Deus os olhos, e viu um poço de água; e foi encher o odre de água, e deu de beber ao menino. E era Deus com o menino, que cresceu; e habitou no deserto, e foi flecheiro.” (Gn 21.17-20)

  • RELACIONAMENTO DE DEUS COM JACÓ

“Então disse: Não te chamarás mais Jacó, mas Israel; pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste. E Jacó lhe perguntou, e disse: Dá-me, peço-te, a saber o teu nome. E disse: Por que perguntas pelo meu nome? E abençoou-o ali.” (Gn. 32.28-29)

O iminente encontro com seu irmão Esaú abalou Jacó até ao fundo de sua alma e preparou o cenário para uma das lutas e vitórias espirituais significativas do livro de Gênesis. Peniel, local onde o fato ocorreu, tornou-se sinônimo de experiência de crise que transforma a alma.

Na escuridão, um varão, que no versículo 30 se identifica como Deus, luta com Jacó. Durante a luta, Jacó teve o seu quadril deslocado, mas prolongou o combate insistindo que não deixaria de lutar até que o abençoasse (v.26). Em resposta a luta, Deus muda seu nome para Israel, “aquele que luta com Deus ou prevalece com Deus”.

Depois desse encontro com Deus Jacó dá o nome ao lugar do ocorrido de “Peniel”, porque dizia: “Tenho visto a Deus face a face, e a minha alma foi salva.” (Gn 32.30)

  • O QUE DEUS REVELOU SOBRE SI MESMO?
  • O QUE CONHECEMOS SOBRE DEUS:

É muito recorrente na teologia estudar as características que podem ser atribuídas a Deus. Chamamos estas qualidades de “atributos”. Os teólogos vêem pelo menos 33 atributos de Deus revelados na escrituras. Sabemos que alguns são compartilhados com sua criação e outros não compartilhados. Dr. Haraold L. Willmington em sua obra de teologia sistemática, separa em atributos não comunicáveis (são exclusivos ao ser e a natureza dEle), como por exemplo: Deus é Espírito, Deus é invisível, Deus é infinito, entre outros. E os comunicáveis (vivenciados na existência humana), como por exemplo: Deus é vida, Deus é justo, Deus é gracioso entre outros.

O que conhecemos sobre Deus é muito pouco em relação a sua dimensão, é possível que existam muitos atributos que não conhecemos e talvez nunca conheceremos.

  • A IMATERIALIDADE DE DEUS

Segundo o dicionário Aurélio, imaterialidade significa: (Que não se constitui de matéria, que não se consegue tocar; impalpável, o que é imaterial; o que não é corpóreo; espiritual). Já a palavra invisível significa: (que, por sua natureza, não tem visibilidade, que não corresponde a uma realidade sensível, que se esconde e não quer ser visto).

Calvino define a Imaterialidade de Deus como: “A natureza de Deus é em si infinita, invisível, eterna, todo-poderosa; de onde se conclui que se enganam os que atribuem a Deus uma forma visível. Na sua única essência há três pessoas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.” (ICR, p. 100, “Aphorisms” [Provérbios], 1.8).

Além da sua eternidade sabemos pelas Escrituras Sagradas que Ele é imaterial, invisível, mas não de forma inacessível ou ausente (como um fantasma invisível), nós o sentimos, mesmo não o vendo em sua essência, sua criação expressa à grandeza desse ser. O apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos escreveu:

“pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (Rm. 1.19-20)

Quão grande maravilha saber que mesmo sendo Espírito ele se manifesta através do seu poder criador e compartilha conosco seus atributos divinos. Diversos textos bíblicos anunciam que Deus é invisível, isso significa dizer que a verdadeira natureza e essência intrínseca do criador jamais podem ser plenamente vistas pelos olhos da sua criação. Ele é o ser supremo, puro e perfeito, incorpóreo, imaterial e isento de partes físicas, tamanhos ou dimensões. (Elemental Theology. P.23)

Além disso, Paulo na sua primeira carta a Timóteo descreve bem sobre este assunto, sobre a imaterialidade de Deus: “Ora, ao Rei dos séculos, imortal, invisível, ao único Deus sábio, seja honra e glória para todo o sempre. Amém.” (1 Tm 1.17)

  • MAS O QUE ESTES PERSONAGENS BÍBLICOS VIRAM?

Embora as escrituras declarem que o Pai é, por Sua própria natureza, invisível aos olhos humanos como nos versículos abaixo:

  • Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou. (Jo 1.18)
  • Não que alguém visse ao Pai, a não ser aquele que é de Deus; este tem visto ao Pai. (Jo 6.46)
  • O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; (Cl 1.15)
  • Pela fé deixou o Egito, não temendo a ira do rei; porque ficou firme, como vendo o invisível. (Hb 11.27)
  • Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade. (Jo 4.24)

Ele, no entanto, escolheu manifestar-se em diversas ocasiões, como alguns personagens citados no tópico 2, e outros que faremos uma simples referência como nos casos de Isaías que viu a Sua Santidade (Is 6.1-3), Miquéias (1 Rs 22.19), Ezequiel (1.26-28), Daniel referiu-se como o ancião de dias (Dn 7.9-12), Habacuque viu raios brilhantes de luz (Hc3.4), João viu um brilho semelhante a esmeralda (Ap.2-7).

De que maneira esses homens viram a Deus se Ele é Espírito, será que essas aparições seriam antropomórficas (que apresenta características humanas a Deus), uma teofania, do grego theophnaia, (Théos, “Deus” e phanei, “aparecer”), termo este que os teólogos utilizam para descrever as aparições de Deus (em forma humana ou através fenômenos da natureza), ou uma Cristofania, que segundo o dicionário, é um termo técnico da teologia cristã utilizado para designar as aparições de Cristo pré-encarnado ocorridas no Antigo Testamento.

O texto base deste artigo relata que, “subiram Moisés e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E viram o Deus de Israel, e debaixo de seus pés havia como que uma pavimentação de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade.” (Êx. 24.10).  Está explícito nesta perícope que eles viram uma representação visual de Deus. O Eterno utilizou-se de meios da sua própria criação (natureza) para selar um acordo com esses homens e com a nação de Israel. Em vários momentos a figura de Deus Pai utilizou-se dessas representações, como nas aparições através da sarça ardente, da coluna de fogo, da coluna de nuvem, da Shekinah no Tabernáculo, essas e outras ocorrências, principalmente no Antigo Testamento, remetem a tempos em que homens puderam experimentar os propósitos do Senhor.  A finalidade dessas variadas aparições interpola-se desde um chamado ao ministério como com Abraão e Moisés, ou em resposta a um aflito, como no caso de Agar e Ismael, onde o Anjo do Senhor, uma aparição de Cristo pré-encarnado, trazendo uma solução para a necessidade de Agar.

E ainda, novamente Anjo de Yavé aparece a Jacó, que através da sua fé e persistência, consciente de que esse encontro resultaria em poder de Deus sobre a sua vida, trava uma luta ao longo da noite com esse Anjo e prevalece sendo abençoado, não somente ele, mas toda Nação que este representaria. Depois deste evento Jacó, agora Israel, príncipe de Deus teve não só a sua vida mudada, mas também a sua história.

Mesmo com todas essas aparições antropomórficas, a Bíblia nos informa que Moisés falou com Deus “face a face” (Dt 5:4), Norman Gesleir, no seu livro Manual de dificuldades bíblicas, explica a expressão “face a face” como “pessoalmente”, ou “diretamente”, ou ainda “com intimidade”. Gesleir continua dizendo que Moisés teve esse tipo de relacionamento íntimo com Deus. Mas ele, assim como mortal algum, jamais viu a “face” (a essência) de Deus diretamente. Foi à semelhança de Deus que esses homens viram, não sendo possível vê-lo em sua essência, podemos solucionar essa contradição a luz da própria Escritura, quando Moises no livro de Êxodo (Ex 33.18-23), roga a Deus para que mostrasse a sua gloria, e acaba sendo respondido no (V.20), onde Deus declara assim: “E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá.

As escrituras relatam em outros momentos sobre a impossibilidade do homem ter visto a Deus, como é dito no evangelho de João (1.18) que “Ninguém jamais viu a Deus”. De acordo com Paulo na sua primeira Epístola aos coríntios (1 Co 13.12), vemos em enigma, mas um dia pela graça de Deus poderemos ver face a face.

E afinal, Deus ele pode ser visto?  Sabemos que ele pode ser conhecido através da sua criação, Paulo em sua epístola aos Romanos declara que os homens são indesculpáveis, pois o seu poder se manifesta claramente na sua obra. Jesus durante o seu ministério terreno foi indagado por Felipe, história essa que podemos ler no Evangelho de João (14), onde Felipe pergunta, “Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta”, e tendo como reposta, “Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?”

Jesus é a imagem do Deus invisível (Cl 1.15), temos a representação da figura de Deus Pai em Cristo nosso salvador, como homem mortal que somos, temos nossas limitações, mas um dia ,como esta escrito: “Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele; porque assim como é o veremos.”e contemplaremos a sua face (Ap 22.4).

Certamente veremos a Deus em um futuro próximo, que a nossa esperança esteja nos céus, onde pela graça um dia contemplaremos a sua face, não mais em sombras e sim como é prometido no evangelho de Mateus: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.” (Mt 5:8)

Ao único que é digno de receber

A honra e a glória, a força e o poder

Ao Rei eterno, imortal, invisível mas real

A ele ministramos o louvor

Coroamos a ti, ó Rei Jesus

Coroamos a ti, ó Rei Jesus

Adoramos o teu nome

Nos rendemos aos teus pés

Consagramos todos o nosso ser a ti!

Ao Único ( Bené Gomes, 1987)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Alguns exemplos de homens que supostamente viram a Deus, foram abordados por este artigo, a partir deste levantamento pode-se entender que eles viram manifestações visuais de Deus, as quais o estudo da teologia definiu como teofanias.

Desta forma, faz-se necessário entender que esses textos aparentemente contraditórios, podem ser solucionados a luz de textos mais simples das Escrituras que afirmam que nenhum homem viu o Criador. Essa questão contraditória não significa que a Bíblia possua erros, pois acreditamos na inerrância da Palavra de Deus.

Consideramos que esses homens citados por este artigo não viram a Deus em sua essência, mas cremos que muito em breve o veremos em glória.

REFERÊNCIAS

VIEIRA, Dionei Cleber. Beleza e Curiosidades da Bíblia – Minha Aliança. Disponível em http://dcvcorp.com.br/?p=3416. Acesso em 25 dez. de 2019.

BIBLE HUB. Sermão de Alexander Maclaren. Disponível em https://biblehub.com/sermons/auth/maclaren/the_man_of_faith.htm Acesso em 26 dez. de 2019.

UNIVERSIDADE DA BÍBLIA. O que é TEOFANIA? Disponível em https://www.universalidadedabiblia.com.br/o-que-e-teofania/ Acesso em 27 dez. de 2019.

BÍBLIA DE ESTUDO PALAVRAS-CHAVE HEBRAICO E GREGO 4 . Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2015.

COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON, VOL 1. Tradução Luís Aron Macedo. Rio de Janeiro: Casa das Assembléias de Deus, 2017.

COMENTÁRIO BÍBLICO BEACON, VOL 7. Tradução Degmar Ribas Júnior. Rio de Janeiro: Casa das Assembléias de Deus, 2017.

GEISLER, Norman. Resposta aos céticos 2ª ed. Traduzido Degmar Ribas Júnior.  2016.

STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Traduzido por Regina Aranha, Et al. Belo Horizonte: editora Atos, 2008.

WILLMINGTON, Harold L. Guia de willmington para a bíblia. Rio de Janeiro: 2015.

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